Quando era tarde

Antes de perder Richard, Francesca nunca tentara ligar ou escrever para Robert, embora estivesse prestes a fazê-lo todos os dias, durante anos. Foram catorze. Se se falassem mais uma vez, ela iria ao encontro dele. Se escrevesse, sabia que ele viria buscá-la. Essa era a proximidade dos dois. Por isso não o fez.

Ela o amou naquela época mais do que achava possível. E o amava ainda mais. Teria feito qualquer coisa por ele, exceto, destruir sua família. Acreditava que Robert pensava assim também pois, após aquela única carta de amor manuscrita, junto com as fotos que fez dela na ponte, na manhã em que se conheceram, ele nunca mais lhe enviou notícias.

Depois do funeral de Richard, quando os dois filhos voltaram para suas casas e suas vidas, Francesca pensou em telefonar. Onde o encontraria após mais de uma década? Ponderou bastante antes de começar sua busca. Ela tinha agora cinquenta e nove anos. Ele estaria com sessenta e seis. Talvez fosse tarde demais.

Levou um dia para decidir. Então ligou para a revista onde ele trabalhava quando esteve em sua cidade e os dois se apaixonaram durante quatro dias de convivência intensa e definitiva. Não conseguiu muita coisa, as pessoas que se lembravam dele, disseram que não aparecia há meses. Mas deram-lhe o telefone de uma outra revista, quem sabe ela tivesse sorte dessa vez. Não teve. Na segunda revista, o trabalho era esporádico. Conseguiu outro número. Depois mais um. E mais outro…

Tarde demais, pensou, quando a última pessoa garantiu que ninguém por ali conhecia o tal fotógrafo.

Passados outros dias, encontrou em seus guardados a derradeira esperança. O telefone de um editor, velho amigo dele, cujo cartão fora deixado de propósito por Robert, caso aquele momento de rastreio chegasse.

O homem do outro lado da linha reconheceu seu nome.

— Ora, a Francesca do Robert existe de verdade? – Sorriu com a voz e ela sentiu-se como uma colegial.

“Kincaid era um profissional sem vínculos”, informou o que ela já sabia, “faz tempo que não trabalhamos juntos”. Ela sorriu educadamente, com a mão sobre o peito, embora ele não pudesse vê-la. “Direi que você o está procurando, caso a gente se encontre”, finalizou com gentileza.  

Sem alternativas, Francesca seguiu em frente, agora que tinha muito tempo livre e ninguém mais precisava dela, podia se dedicar a si mesma – mas por um instante, foi sincera consigo: tinha medo do que podia descobrir, caso continuasse procurando por Robert depois de tantos anos.  

O mês terminou e o clima ficou mais ameno. Foi numa tarde de outono, ela estava sentada em sua varanda e registrava memórias num caderno com capa de couro preto – hábito adquirido anos antes – quando ouviu um barulho de rodas amassando o cascalho na estradinha que passava ao lado de casa. Ela o sentiu antes de vê-lo.

Robert Kincaid desceu da velha caminhonete com destreza. Fechou a porta com um baque e caminhou, firme, na direção do portão. Ela ficou de pé e eles se encararam.

Ele usava calças jeans e uma camisa de mangas compridas enroladas até os cotovelos, parecia ter se arrumado com capricho. As rugas ao redor dos olhos haviam aumentado e os cabelos embranquecido, mas o sorriso não mudou nada. Francesca sorriu de volta e atravessou o espaço entre a varanda e o amor de sua vida como se flutuasse.

— Recebi seu recado – ele disse.

— Senti saudades.

— Esperei por catorze anos para que você mandasse me chamar. Estou feliz que não tenha demorado mais.

Aquele beijo atravessou vidas inteiras, mas, enfim, voltava ao seu lugar.  

Desfecho alternativo para o livro “As pontes de Madison”, exercício livre de escrita. Fanfic.

Sem rancor

A mensagem chegou no meio da tarde, inesperada. Sorri para o telefone.

Como se acordasse de repente, sonolenta e desorientada, reli as breves três frases.  

Preciso ver você. Encontre-me agora no café da estação. Sei que errei.

Senti um arrepio na nuca, uma pressão no estômago. Notícias boas em dias aborrecidos trazem até a fome de volta!

Vou lá embaixo um instante, anunciei para o escritório ouvir, falando com ninguém em especial.

O elevador parou no quinto e no terceiro andares antes de chegar ao térreo. E eu só pensando no que diria, era importante ter logo tudo em mente para evitar perder tempo.

Caminhei pela calçada desviando dos buracos, vivia quebrando saltos pela cidade, só me faltava ter que mancar até lá! Um, dois, três prédios depois, avistei o objeto do meu desejo.

— Um sundae de baunilha, com calda dupla e bolinhas de chocolate no lugar do amendoim, por favor.

Voltei para o trabalho saboreando a iguaria, satisfeita, feliz da vida.

“Sei que errei” – Ora, quem não sabe? Faltava que admitisse.

Cantarolei no elevador.

Independência ou desvario?

Acordei tarde, era feriado. Pela janela, subia da rua o som da alegria. Buzinas, gritos, palmas, um cântico de júbilo ecoava. Do que se tratava? Perguntei-me, ainda sonolenta, esfregando os olhos e movimentando os músculos devagar.

Calcei os chinelos, debrucei-me para fora. Pessoas caminhavam pela calçada e riam umas com as outras. O que aconteceu? Que tamanha felicidade se sobrepôs ao caos?

Apurei os ouvidos. Os sons ficaram mais nítidos. Uma grande comemoração tomava as ruas, a cidade, o país inteiro!

A vacinação alcançou a todos, alguém gritou. A economia reagiu, fiquei sabendo. O desemprego acabou, a violência reduziu, o salário recuperou o poder de compra! Viva!

Havia mais: a segurança agora era levada a sério. A educação chegava a todos e não seria mais tratada com o desrespeito e a politicagem de outros tempos. Púlpitos e altares não permitiriam mais mentiras de ocasião. Ir ao mercado já não assustava.

Alardeavam que discutir ideias sem partir para o ataque se tornara normal. E que em cada esquina da nação havia uma biblioteca. As livrarias viviam cheias, os livros deixaram de ser artigos de luxo. Já não seríamos mais “o país do futuro que nunca chega”, finalmente!

Toda a imprensa noticiava os justos motivos para a população fazer muito barulho no feriado. E os especialistas debatiam as abundantes provas de bom uso do dinheiro público, dos investimentos sociais responsáveis, do respeito à igualdade e equidade entre o povo.   

Euforia legítima, quanta imaginação…

Acordei tarde. Pela janela, subia o som da rua. Pobres almas que, de tão desencantadas, exigiam despropósitos.

Encarei a realidade e proferi um palavrão. Fechei a janela e voltei para a cama.

Mero Acaso – meu livro de contos

Meu primeiro livro, lançado esse mês, representa a realização de um sonho. Além disso, é a prova viva que foco e persistência dão resultado. Um ano atrás eu decidi que transformaria uma quantidade enorme de textos produzidos aleatoriamente por muito tempo em projeto, e assim fiz. Em março de 2021, Mero Acaso estava em ponto de revisão final para publicação. Em 02/06 o e-book ficou disponível na Amazon e hoje, 30/06, a versão física foi para o site da Uiclap.

É um livro leve, curtinho, para ler em um dia ou dois, depende do leitor. As palavras que mais se repetem nos retornos que recebo são: fluido, leve, divertido, prende a atenção, torço pela Mila, quero que Heitor e Leo fiquem juntos!

Cada feedback, um carinho.

Os seis contos de Mero Acaso são independentes, ou seja, você pode começar por onde quiser. O ponto de ligação entre eles é o destino, a “mãozinha” que dá o pontapé em cada história. Tudo começa mesmo pelo acaso e daí…

O acaso e as diversas formas de amor. Amor entre diferentes, entre iguais, amor de amigo, amor-próprio. Seis histórias de perdas e sonhos, solidão e entrega, recomeços e pontos finais. (Spoiler: muita gente está se identificando!)

São personagens apaixonados, vivendo situações corriqueiras ou as mais improváveis, mergulhados em seus limites na busca pelo maior desejo de todas as pessoas: ser feliz.

Vem comigo?

E-book na Amazon: https://bityli.com/4415T

Físico na Uiclap: https://loja.uiclap.com/titulo/ua8352/

A montanha

O dia não clareou ainda. Fiz café, chequei a mochila de novo, senti aquele frio na barriga que me acompanha há dias. Coração martelando no peito. É a minha primeira vez, você sabe.

Joguei tudo dentro do carro e, você não vai acreditar, ele pegou de primeira! Bom presságio, quase te ouvir dizer.

O pessoal vai esperar no ponto de encontro. Somos cinco agora; o número ímpar incomoda todos nós.

Devo confessar, passei todos esses dias lamentando as oportunidades que perdi por medo. Chorei muito, quebrei umas coisas, blasfemei. Nossos amigos me consolaram, disseram que tudo tem um motivo, falaram em ciclos, garantiram que não tenho do que me culpar. Eu os entendo. Até lhes dei razão. Mesmo assim, gostaria de ter aproveitado melhor nosso tempo. Será que doeria menos?

Quando combinamos de cumprir o seu pedido, tive que buscar forças em você, veja só que ironia. Tentei sentir sua presença e… nada. Não estou forte coisa nenhuma!

Promessa é promessa, repito. E sigo adiante. O sol nasceu, começamos a caminhada, a turma toda junta. Levamos uma hora. Depois, mais duas de subida. Você teria feito em metade do tempo, eu sei, pare de se gabar, se lembre que tenho medo de altura.

Está preparado para o que vou lhe contar? Conquistei o ponto mais alto. Sozinho. Quem surpreendeu quem agora? – Daqui pude entender do que tanto você falava. Olhar o mundo dessa perspectiva é mesmo como contemplar um retrato de Deus.

Sentado nessa pedra, admirando o céu azul, a paisagem verde, o vento constante e toda a perfeição ao meu redor, minha mente ficou quieta e pude fazer uma prece – Bem a tempo da sua chegada.   

O grupo está esperando ali, uns metros antes, sabe como é, esses minutos a sós com você e Deus me fizeram falta. Nós três precisávamos nos entender de uma vez.  

A caixa está no chão. Enxugo as lágrimas e te mandou um beijo pelo ar. Prometo tocar em frente, parceiro. Cumprirei mais essa, fique tranquilo. Vá em paz. Agora você faz parte da montanha que mais amava. 

PS: Escrevemos uma música para quando as cinzas voarem, você vai rir à beça da letra. 

O Noticiário

Estávamos isolados havia cento e oitenta e quatro dias quando o jornal da noite anunciou. Pensei nele na mesma hora. Théo. Onde estaria? Nosso afastamento restou decidido muito antes da pandemia obrigar mudança de hábitos.

Hábitos – os nossos não combinavam mais, concluímos. Nem as opiniões, preferências, posições ou sentimentos. A linguagem floreada que a paixão exacerba desaparecera. Criaturas distintas. Uma do dia, outra da noite, sabíamos. Nunca combinamos e achávamos que ser opostos era o certo, dava o charme, encaixava no dito popular.

Você gosta de azul? Eu amo dourado! – Um do mar, outro da montanha, um no show de rock, outro na rosa de samba, café sem açúcar e chá gelado, samambaia e cacto, cerveja e gin, esquerda e direita. Um no presente, outro no futuro! Sem jamais encontrar, sem pouso, sem rumo, almas difusas vivendo sob o mesmo teto, isoladas.

O cara do jornal anunciou um vírus terrível, desconhecido, fechando tudo e todos. Nós adiantamos o relógio, Théo e eu, trancamo-nos meses antes – Fim da linha, daqui não passamos mais, decretamos. Seremos amigos, mentimos. Terminamos. Ao menos dessa vez fora acordo – Eu não pensava nele até o mundo começar a ruir.

Acordei mais cedo. Abri a geladeira, precisava fazer compras. Liguei o computador, andava detestando essa janela para o mundo. Metáfora brega. Fazia três meses que eu não saía de casa; tudo ao meu redor já começava a parecer detestável.

Pedi online o que faltava na despensa. Fiz café expresso. Fiz meu login no sistema da empresa. A agenda apitou – reunião por videoconferência. Outra. Mais uma. Todo dia! As planilhas apareceram na tela. Números ruins, metas inalcançáveis, o pessoal do RH mandou um texto motivacional copiado de um coach famoso na internet. Igual a antes da pandemia.

Na metade da manhã fiquei exausta. Todos ficamos – a imagem congelada mostrava rostos cansados, as olheiras mal disfarçadas e a mensagem de conexão instável na tela. O tempo passava, mas continuávamos presos no mesmo dia, desde aquele noticiário. Recordei um filme antigo.

A reunião acabou. Suspirei. Tinha coisas úteis a fazer. Dei uma risada. Úteis? Concentrei-me nas tarefas até a hora do almoço, então dei-me conta que as compras não chegaram. Abri o aplicativo: Mônica, seu pedido está indo até você…  Outro suspiro. Voltei para a lista, à cata de um restaurante.

À tarde todos se calaram. Não haveria encontros no café, nem conversas no corredor, ninguém fugiria até a esquina para comprar doces na barraca do moço. O que será que aconteceu com o moço da barraca de doces?! – Pelo aplicativo de mensagens internas acionei os colegas do antigo andar. Você soube? Alguém comentou? Você voltou lá? De repente fui tomada por uma angústia dilacerante. Ninguém sabia do moço. Nem mesmo o nome dele! Meu Deus, o que fizemos? O moço tirava o sustento de sua família das balas, chocolates e amendoins que nos vendia na calçada, na esquina da avenida por onde passávamos todos os dias, depois do almoço em restaurantes lotados, quando o cumprimentávamos por hábito e levávamos o açúcar que nos mantinha alertas até o fim do expediente. Por que nunca perguntei o nome dele? Senti vontade de chorar. Nós levamos nossos computadores para casa e continuamos produzindo, recebendo salário, vale refeição e plano de saúde. E o moço… ?

O resto das horas arrastava-se, eram esses os dias que se recusavam a terminar depressa. Espiei pela janela vez ou outra, ato mecânico, mas o silêncio da rua despejava qualquer coisa agourenta no ar.  

As compras chegaram. O entregador deixou as sacolas na portaria, o porteiro as colocou no elevador para mim. Não víamos mais uns aos outros. Conferi, limpei, guardei. Voltei ao aplicativo, pedi pão na padaria. Fiz mais café. Voltei para o computador. Naveguei pelas notícias, fofocas das celebridades, parei nas redes sociais. Faz tempo, não ligo mais.

Mentira! – Suspiro. Suspiro. Suspiro.

Théo não trocou a senha de sua página. Quem se importa? O perfil ficava aberto mesmo. Usei a senha como uma espécie de vingança pessoal. Um jeito de dizer: viu só, não tínhamos segredos!?! Tola. Dizer para quem? Quem está aqui para ouvir?!

Théo tinha outra namorada e também morava com ela. Ele gosta de morar junto, comigo fez igual. Dois meses e apareceu com as malas. Apaixonado e apaixonante, o Théo, foi difícil terminar. Se eu soubesse o que viria teria esperado um pouco mais. A paixão se fora, mas companhia não se dispensa assim, agora entendia, e o Théo era bom. Boa pessoa, bom de papo, bom de cama. Definitivamente, teria esperado.  

Isolada com ele. A legenda cretina apareceu numa foto ridícula de quatro pés vestidos com meias brancas. Aqui só o vírus do amor. Mas que idiota! Não é hora de fazer brincadeirinhas estúpidas com um vírus letal, sabia?! E eu dei essa camisa para ele, sua vaca! – A nova mulher do Théo era feia. Meu peito se aqueceu. Sim, ela é feia e não há nada que possa fazer a respeito!  

Fechei o laptop. Desisti. Decidi manter distância das redes sociais, da internet, do meu ex e de sua nova vida. E chorei. Não um choro qualquer, eu desabei. Solucei, balançando os ombros, tremendo o corpo, inchando a cara, até sufocar. Meu peito ardeu, devia estar infectada, meus olhos embaçaram, comecei a tossir, sozinha, não sabia mais como respirar!  

De repente, um barulho lá fora me assustou. O vizinho deixou cair algo pesado ou foi um estouro? Uma criança gritou, um cachorro latiu, levantei-me depressa, limpei o rosto com as mãos, debrucei-me na janela, botei a cara lá fora, apurei os ouvidos. Alguém caiu? A quem devia chamar? O barulho veio mesmo do apartamento ao lado? Esperei. Não sabia quem morava ali. Bem, sabia sim, era uma jovem família – o rapaz alto, a moça loira e a menina de cachinhos. Encontro com eles no elevador, às vezes. Encontrava. Antes. Antes do noticiário. 

A criança gritou novamente, foi quando entendi, era uma risada. O único barulho que vinha da casa, uma estridente, espontânea e infantil gargalhada!

Duas vozes surgiram ao fundo, cantando parabéns pra você. Ouvi palmas, ovações, é pique é pique! Encostei na parede e deixei meu corpo deslizar até o chão. Cantei baixinho é hora é hora, ra tim bum!

No aniversário de uma garotinha, cujo nome eu não sabia, um momento de felicidade em meio ao caos. Um acontecimento que devia ser destaque no noticiário da noite. Para salvar outras vidas além da minha.   

Sinceridade

Terminou como se fosse um carnaval – restos de fantasias espalhados pelo chão, um pouco de brilho desvanecendo no rosto e ressaca.

Na última vez que brigamos, jurei que não voltava mais. Quebrei a jura, mas você também não cumpriu sua parte.

Agora acabou. Sei que é definitivo, porque vi em seus olhos.

Você não entende? O que conta não é o que a boca diz, mas aquilo que os olhos gritam!   

Nosso tempo passou, tem razão, eu aceitei. Apenas me falta sinceridade quando lhe digo que desejo que sejas feliz sem mim.

Nosso lugar

Você sumiu.

Foi preciso.

— Sem dizer nada… Como você acha que eu fiquei?!

Como?

O quê?

Como você ficou?

O silêncio pairou sobre mim. Nunca tinha experimentado sensação parecida, uma quietude interior completa, pensamentos em branco, exceto pela voz dela em minha mente – como você ficou?!

Triste – murmurei.

Bianca me encarou, ela sabia a verdade e, uma vez mais, eu a decepcionava com minha covardia.

Desculpe – olhou para os tênis sujos de grama – sei que é difícil para você.

— Nossos amigos… E meus pais! Todo mundo… todos que conhecemos falam de nós o tempo inteiro!

Tem razão. As pessoas comentam, pensam que têm direito de opinar, de decidir como devemos viver ou o que nos é permitido sentir. O problema é que elas não vão mudar.  

Puxei o ar com força. Queria argumentar, mas me detive. Ela parecia cansada. Eu a tinha feito desistir, finalmente.

Por um minuto ou dois apenas olhamos o horizonte. Nos sentamos na grama molhada, sujando as roupas, mas ninguém se importou. O sol estava se pondo, a gente gostava de observar, bem dali, daquele lugar que chamávamos de nosso. Era um campo, com uma parte elevada cercada de árvores. Uma bela vista, onde tínhamos a impressão de que o mundo se aquietava e esquecia da gente. Aos finais de semana, a criançada aparecia para brincar e jogar bola lá embaixo, mas hoje não havia ninguém. Apenas nós, o vento e o sol se despedindo do nosso lugar. Senti uma angústia crescendo em meu peito.

Quer saber de uma novidade? – Bianca falou sem se virar – pesquisei seu nome na internet, lembra que eu vivia falando disso? – Assenti com a cabeça, claro que me lembrava.

O que você descobriu?

Veio de uma princesa africana – arrancou um raminho do chão e atirou do outro lado – Combina, viu?

Não abri a boca e, sem nenhum motivo racional, meus olhos se encheram de lágrimas. Tentei disfarçar, virando o rosto.

Vou nessa, Anaya – Bianca se levantou num salto, espanando os vestígios de terra do vestido – Se cuida.

Bia, espera! – Apoiei um joelho no chão, meio desequilibrada, sentindo o coração batendo forte… e falei de um fôlego só – Eu não vou mais fugir da gente. Bem aqui, nesse lugar onde nos beijamos a primeira vez, e tudo começou, eu quero prometer que, desse momento e para sempre, nunca mais vou esconder quem sou. Nunca mais vou esconder você!

Bianca também tinha os olhos molhados, mas segurou minha mão e abriu seu sorriso mais lindo, aquele que eu tanto amava.

Questão de escolha

Nina desceu do avião apressada. A viagem atrasou, agora seus planos para relaxar um pouco antes da reunião iriam por água abaixo. Praguejou baixinho observando a esteira que, parte do complô, se recusava a devolver sua mala.

Do outro lado, Benjamin observava, indiferente, o ir e vir de bagagens, enquanto Melissa, sua esposa, teclava no celular.

Todos os passageiros chegaram, apanharam suas coisas e se foram. Todos, exceto Nina e aquele casal. O rapaz alto, de pele morena e cabelos fartos, aparentava cansaço ou tédio, talvez um pouco dos dois. Sobre a moça, Nina teve impressão de conhecê-la, mas não se lembrou de onde.

Levou duas voltas completas para que, enfim, a esteira aparecesse com sua Louis Vuitton. Ela a pegou e foi embora, deixando para trás o casal que seria o último premiado da rodada.

Quando conseguiu tomar um taxi, Nina conferiu a hora e chegou à conclusão que daria tempo. Era uma executiva competente e acostumada a imprevistos, não teria dificuldade para contornar a lambança que seu chefe inútil havia aprontado com um dos principais clientes da companhia. Vai dar tempo, pensou mais uma vez.

Melissa não parou de navegar pela internet durante todo o caminho do aeroporto ao hotel. Ben queria conversar um pouco, para variar, mas contentou-se em olhar pela janela, para Roma passando lá fora, perdido em pensamentos. Tinham chegado bem longe dessa vez.

Distraído, escorregou a mão pelo banco até tocar a perna da esposa. Aquele trabalho significava uma grande oportunidade para ela, seu apoio contava. Mel tornara-se uma modelo requisitada, e ela merecia, depois de tanto esforço.

— Nossa primeira vez na Europa, querida – virou-se para a esposa – pesquisei todos os lugares mais românticos da cidade! – espalmou a mão em seu joelho.

— Uhum…

Vamos conhecê-los nas horas vagas, divagou, em algum momento haverá horas vagas, manteve-se otimista. Até lá, precisaria pensar em um título melhor que marido da modelo – já o tinham chamado de agente e de assistente, mas aquela última entrevista antes de sair do Brasil lhe imputou aquele termo ridículo. 

Nina chegou na hora marcada e a reunião transcorreu sem incidentes. Ao final, porém, foi surpreendida pelo convite inusitado do cliente que, duas horas antes a recebera furioso.

Ela não planejou aquela viagem, nem mesmo se imaginou na Itália até três dias antes de embarcar. Definitivamente, não era sua responsabilidade atender in loco os clientes de Eduardo, seu chefe parasita-filho-do-dono-da-empresa! Mas, lá estava, na frente de Dante de Lucca, um dos principais investidores de seu negócio, o homem que abominava qualquer menção ao nome de Eduardo e para quem ela havia acabado de resolver todos os problemas criados por seu próprio diretor de operações. 

Ti presenterò a persone importanti – Ele disse, do modo típico italiano, falando também com as mãos.

Grazie.

Una riunione degli investitori. In due giorni.

Uma reunião com investidores em dois dias, conseguiu entender, mesmo com seu italiano fajuto. Não seria bem uma reunião, a secretária que servia de intérprete fez a gentileza de explicar, mas um coquetel na casa do senhor De Lucca. Nina aceitou o convite com fingida alegria.

Uma viagem de última hora para apagar um incêndio e que pode resultar em novos negócios, quem diria! – refletiu, mais animada, depois de deixar o suntuoso prédio e caminhar pelas ruas do bairro chique. Avaliaria melhor as possibilidades e, quem sabe, a empreitada acabaria não sendo tão frustrante afinal. Se conseguisse mais um ou dois bons clientes na Itália, cobraria um acréscimo ao seu bônus no fim do ano – Agora só precisava descobrir o que fazer por dois dias inteiros até a hora do coquetel.

Na manhã seguinte Melissa saiu cedo; não sem antes dizer ao marido que ele podia ficar.

— Descanse da viagem, amor – sorriu seu sorriso mais angelical. Ben contemplou os olhos verdes, os cabelos loiríssimos, as curvas da esposa, acentuadas pelo jeans justo e a camiseta branca, e quis muito puxá-la de volta para a cama.

— Quero ir com você.

— Relaxe – beijou seus lábios – vá se distrair um pouco, você merece! – Mel calçou os sapatos, pegou o casaco, a bolsa, checou o celular, beijou o marido mais uma vez e saiu sem olhar para trás.

Ben estranhou o comportamento evasivo, mas logo se esqueceu do episódio e decidiu seguir o conselho. Tomou um banho, pediu o café da manhã no quarto, se vestiu de modo casual e desceu. Quando chegou à portaria, percebeu que havia esquecido o celular e voltou. No hall, encontrou uma mulher bonita e elegantemente vestida que também esperava para subir. 

— Buongiorno – Murmurou, envergonhado, uma das poucas palavras que conhecia no idioma. A moça ofereceu um pequeno sorriso educado. Por coincidência, estavam hospedados no mesmo andar e acabaram se despedindo no corredor com breves acenos de cabeça, depois caminharam em direções opostas. 

Ben passeou por Roma durante toda a manhã. Bateu perna pelas ruas, visitou lojas, chegou até o Coliseu e almoçou num simpático bistrô, cujas mesas ficavam dispostas na calçada. Sentiu-se muito só na maior parte do tempo, mas não era um homem que se lamentava. Por impulso, ligou para a esposa, queria saber como estava indo seu dia. A ligação foi direto para a caixa postal. Calculou que seria hora de almoço para ela também e enviou uma mensagem. Quando retornou ao hotel, ainda não havia recebido resposta.

Mel telefonou horas depois. A sessão se estendeu mais que o previsto, contou. Ben a esperou para jantarem juntos.

— Prefiro não descer, amor.

— Achei que aproveitaríamos a noite.

— O dia foi tão puxado – Mel fez um biquinho – prometo te compensar depois – Ben já ouvira a mesma promessa outras vezes, até recentemente. No entanto, embora sentisse falta da companhia da mulher, obrigava-se a entender seus motivos. 

— Vou ligar para o serviço de quarto.

— Você pode descer, se quiser. Fiz um lanche na locação, estou sem fome – Melissa o beijou – Tenho que acordar muito cedo amanhã, Ben, preciso mesmo dormir agora.

Ele largou o fone. Ela se ajeitou na cama, apagou o abajur, deixando o quarto às escuras. Ben pensou um pouco no que deveria fazer, não tinha certeza se ainda queria jantar, porém, estava sem sono e ela reclamaria se ele ligasse a televisão. Saiu sem fazer barulho. 

No restaurante do hotel, uma banda tocava jazz – escolha curiosa em Roma, pensou, mas o que ele sabia? – O lugar estava cheio, não lotado. Foi direto ao bar, sentou-se num banco alto e pediu uma cerveja. Enquanto o barman o servia, reparou na moça do elevador sentada a um banco de distância. Ouviu quando ela pediu gin tônica, e também quando resmungou ao derramar um pouco da bebida no balcão.

— Merda.

— Brasileira? – Pensou alto, sem querer. Ela virou a cabeça de lado – Desculpe – apressou-se, sem jeito – Ela sorriu.

Era mesmo uma mulher muito bonita, notou na vez anterior e – procurou a palavra – sofisticada. Isso. As roupas, a bolsa, os sapatos… tudo gritava caro. Ben sempre se sentia intimidado perto de pessoas que tinham muito dinheiro.

— Brasileira – ela apontou para si – e você?

— Culpado – os dois riram.

— Temos nos esbarrado essa semana. Desde o aeroporto.

— No aeroporto?

— Tenho certeza que era você. Chegamos no mesmo voo, eu o vi na esteira de bagagens com uma moça. 

— Agora que você falou, eu me lembro. Puxa, desculpe, sou péssimo fisionomista.

— Eu nunca esqueço um rosto.

Ele tomou a liberdade de ocupar o banco ao lado dela.

— Era minha esposa, Melissa.

— Ela é famosa?

— Hã… sim… um pouco – sem saber bem a razão, ficou sem jeito ao entrar naquele assunto.

— Tive a impressão de já tê-la tinha visto antes.

— Ah. Pode ser. Ela fez um comercial de pasta de dente que ficou muito conhecido na TV. 

— Oh, claro, a moça do creme dental! – a estranha charmosa sorriu – A propósito, ela é muito bonita.  Ben concordou.

— Onde ela está?

— Dormindo – deu um gole em sua bebida – trabalhou o dia todo – deu de ombros.

— Sei como é.

O silêncio durou um pouco. A música mudou, embora ainda fosse jazz. Nina olhou em volta, não sabia o nome do rapaz, mas o achou agradável. Parecia muito jovem, embora fosse bonito o suficiente para um homem. Desde que se divorciara um ano antes, não vinha prestando muita atenção aos homens, menos ainda em garotos.

O garçom aproximou-se dela para avisar que sua mesa estava pronta.

— Sou Nina – estendeu a mão, Benjamim imitou o gesto, dizendo o próprio nome e corrigindo-se em seguida. Ben, todo mundo me chama de Ben.

— Tenha uma boa noite, Ben.

— Foi um prazer conhecê-la, Nina.

Ela seguiu para sua mesa no meio do salão. E lá aproveitou uma boa comida italiana da melhor qualidade, um vinho de excelente safra, a música agradável e a solidão por escolha. Tinha agora um dia a menos naquele país. Não via a hora de voltar ao Brasil, ao seu trabalho e suas coisas. Detestava passar muito tempo fora da empresa com Eduardo solto por lá aprontando das suas.

Já Ben ficou onde estava. Pediu outra cerveja e se contentou em observar o movimento. Gostava de admirar as pessoas, seus comportamentos e manias. Quando era fotógrafo, captar a espontaneidade o fascinava.

Vez ou outra, furtivamente, voltou os olhos na direção da mesa de Nina. Ela parecia absorta por pensamentos distantes, quem sabe também se sentisse sozinha. Ele apenas podia supor, afinal, algumas pessoas apreciam a própria companhia. Ela parece ser uma boa companhia. 

Três cervejas depois, julgou uma boa ideia ir para a rua; sentia-se tonto, não costumava beber. Parou na frente do hotel, aspirou uma grande lufada de ar, então espiou de um lado para o outro, tentando decidir que direção devia tomar.

Fazia um pouco de frio, ele baixou as mangas da blusa fina, enfiou as mãos nos bolsos da calça e caminhou a esmo até chegar numa praça, não muito distante. O lugar, rodeado por bares e restaurantes, fervia de gente. Encontrei um point romano, disse a si mesmo, mais desanimado do que gostaria. Outra vez escolheu um canto e ficou observando.

— Como é mesmo o nome daquele filme onde os dois estranhos se encontram toda hora? – A voz soou perto. Ben se virou e logo sorriu para Nina.

— Eles estavam no Japão, não? – Os dois riram.

— Quer dar uma caminhada?

Nina e Ben cruzaram as ruas apinhadas, o vento frio já não incomodava, conversaram sobre o Brasil e sobre Roma. Ele revelou que aquela era sua primeira viagem internacional e desviou os olhos quando disse isso, Nina percebeu. Foi quando entraram num campo mais pessoal da conversa.

— Você trabalha com sua esposa?

— Ela é a principal modelo de um importante editorial de moda. Eu vim de enfeite – riu da própria bobagem.

Rapidamente, ele quis saber o que Nina fazia e ela lhe contou que trabalhava numa empresa de tecnologia desde menina. Era gerente do departamento de segurança da informação. Ele balançou a cabeça, teve vergonha de perguntar o que significava. Depois de algum tempo de caminhada, entraram num pub.

— Cerveja ou vinho?

— Água tônica, por favor, atingi minha cota de hoje – Nina brincou. Ben fez o pedido ao garçom.

— Então, você já está de partida? – voltou-se para ela.

— Tenho esse coquetel amanhã à noite para encerrar a empreitada – torceu a boca.

— Você não parece muito satisfeita.

— Basicamente, meu chefe é um idiota – levou o copo aos lábios antes de prosseguir – essa viagem foi um desperdício do meu tempo e do dinheiro da empresa.

Ben não sabia o que responder. Ela riu.

— Desculpe o desabafo. Claro que a cidade é linda, é minha primeira vez aqui e quase não vi nada. Acontece que quando você precisa cruzar o oceano para limpar a cagada que outra pessoa fez e nem mesmo reconhece… – Revirou os olhos. Ele ofereceu seu melhor sorriso solidário

— No fim das contas, a cagada foi limpa? – os dois gargalharam.

— Salvei a conta. O idiota já pode se vangloriar sobre o meu trabalho e fingir que foi ele o responsável – falou com sarcasmo. Os dois bebericaram seus copos de água tônica.

— Você já tentou conversar com ele?

— Com quem?

— Com o seu chefe. Ou… com o chefe dele? Dizer como você se sente.

Nina deu uma risadinha irônica.

— Quer saber? Acho que vou dar uma volta por aí amanhã – ela mudou de assunto sem cerimônia – Viajo à beça e raramente conheço os lugares. 

— Não? 

— Não. Hotéis, escritórios, problemas… toda vez que viajo fico presa a esses três itens – fez uma careta – até quando saio de férias acabo aproveitando para visitar algum cliente, fazer uma pesquisa, conhecer uma feira nova… essas coisas.

Ben quase retrucou que sabia como era. Por sorte, se sentiu ridículo a tempo de não cometer tal gafe, ele não sabia coisa nenhuma! Escolheu abdicar dos próprios objetivos para seguir Melissa onde ela fosse e, há mais de um ano, se perguntava se fez a coisa certa. Não seria nada justo choramingar para uma estranha, já se achava fraco o bastante sem isso. Nina acabara de falar sobre coisas que ela fazia, ela realizava, ela conquistava com seu trabalho e ele não fazia ideia de como era a sensação. 

— E você?

— Eu?

— Sim. O que você faz de verdade?

— Fui fotógrafo – outra vez sentiu um pouco de vergonha. Pronunciar a frase no passado ainda o assustava. Fotografia tinha sido sua grande paixão e ele continuava carregando sua máquina para onde quer que fosse, mesmo que não se lembrasse da última vez que a tirara da bolsa.

Nina esperou, e como Ben não disse mais nada, mudou de assunto. Voltaram a comentar sobre pontos turísticos e o modo de vida dos romanos, até que ele a interrompeu.

— Quando nos casamos, cinco anos atrás, Mel tinha vinte anos. Eu havia acabado de completar vinte e dois – olhou para Nina, para ter certeza que capturara sua atenção. A resposta era sim – A gente namorava desde o colégio, ela sonhava em ser modelo, só não acreditava que aconteceria – girou o copo vazio sobre a mesa – Cursei jornalismo, mas a fotografia é o que me move. Trabalhei para revistas, sites, fiz muitos batizados e casamentos também – os dois sorriram.

— A carreira dela decolou depois do comercial na tevê?

Ele fez que sim.

— Quanto tempo faz?

— Quase dois anos.

— Foi quando você deixou sua própria carreira?

— No início, não. Mel tentou me emplacar, não deu certo, esse ramo exige nome. Daí a gente combinou de ficar junto o tempo todo… e ela viaja muito agora – deixou a frase no ar.  

— Entendo. 

— Você é casada?

— Fui. Por duas vezes. Fracassei em ambas – fez sinal para o garçom e pediu duas cervejas; esqueceu-se de perguntar a Ben, mas ele não pareceu ofendido – Conciliar dedicação ao trabalho com marido é um desafio que poucas mulheres conseguem vencer.

Ben baixou os olhos. Nina percebeu a mancada.

— Desculpe. Claro que estou falando de mim.

— Não precisa se preocupar. Na verdade, você tem razão.

— As pessoas lidam com a mesma situação de maneiras diferentes o tempo todo, não se culpe por apoiar sua esposa, Ben.

— Não faço isso – mentiu.

— Ouça, o mundo inteiro acha normal uma mulher largar tudo para acompanhar seu homem. Mas esse mesmo mundo estranha quando o contrário acontece. Pessoalmente, acho que ninguém deveria se anular por outra pessoa, porém, tudo é uma questão de escolha.

— Você resumiu bem: a chave está no poder de escolha.

— Você não escolheu?

— Não tenho certeza.

Ben não sabia por que estava dizendo coisas tão íntimas a alguém que mal conhecia, mas não se arrependeu.

O garçom trouxe a cerveja e ambos provaram o líquido, absorvendo o sabor e a reflexões que afloraram – A vida exigia respostas o tempo todo, Nina ponderou em silêncio. Ela escolheu terminar seu último casamento ainda amando o marido; a separação foi a única resposta que encontrou para o conflito que existia entre os dois. Embora lamentasse. O homem com quem decidiu se casar não via que suas exigências seriam impossíveis para ela, uma mulher que trabalhava com tecnologia num ambiente ainda dominado por outros homens, para os quais ela precisava se provar todos os dias, sem fraquejar. Ele se recusou a compreender a importância do que ela fazia e a pressionou para que deixasse o emprego. Que desaforo! Ceder à pressão significaria o mesmo que jogar anos do seu esforço e competência no lixo. No fim das contas, o casamento foi oferecido em sacrifício. 

No caso de Ben, ele não travava a eterna batalha entre os sexos, Melissa também era uma mulher que sabia impor sua vontade. Assim, ele não apenas cedeu, mas colocou a si mesmo na mesa e Mel nem piscou antes de aceitar a oferenda. Com a carreira em ascensão, os contratos se acumulando, a conta bancária acrescendo zeros e o marido ao seu lado, ela se sentiu segura. No início, ele não duvidou que tomara a decisão correta. Cuidar da mulher de sua vida, por quem era completa e perdidamente apaixonado desde que se entendia como homem, significava nada menos que seu dever. No entanto, conforme o tempo passava, a sensação inconfessável de que bastava não atrapalhar tomava conta dele. As coisas mudaram bastante, ele não era mais parceiro da esposa, tinha se tornado o marido da modelo, como o jornalista definiu. A recompensa chegava através de contas pagas e, recentemente, viagens internacionais. E só.

— Se você pudesse fazer qualquer coisa agora, nesse exato instante, o que seria, Benjamin? Nina olhou dentro dos seus olhos e lançou o desafio. Um sorriso maroto brincou em seus lábios. Eles eram dois estranhos, amanhã não se encontrariam de novo, isso permitia uma liberdade nova, onde tudo podia ser dito. Com esse pensamento em mente ela o encarou, divertida. Ben não respondeu de pronto. Antes, chamou o rapaz, pagou as bebidas, puxou a cadeira e esperou Nina se levantar. Ela não fez perguntas e o seguiu.

Vou lhe mostrar, disse-lhe na saída do pub.

Voltaram para o centro da praça, passava um pouco das dez horas e muitos turistas ainda aproveitavam a noite. Ben os levou até uma escadaria ali perto, junto a uma fonte iluminada e um obelisco. Ele apontou onde Nina deveria ficar, sacou o celular e a fotografou.

Ela entrou na brincadeira. Fez poses, riu, sorriu, jogou os cabelos, pulou entre os degraus, enquanto ele a dirigia: olhe para mim; vire-se naquela direção; agora namore a câmera.

No fim do ensaio, se sentiam como velhos amigos. Regressaram ao hotel caminhando devagar, de braços dados, olhando juntos as fotos na pequena tela. Nina passou seu número para que Ben lhe enviasse cópias. Despediram-se com um aperto de mãos no corredor do hotel. 

Ben e Nina não se encontraram no dia seguinte, o último dela na cidade. Em vez disso, ele insistiu com Melissa e foi acompanhá-la na sessão de fotos. Decidiu não comentar com a esposa sobre a noite passada, avaliou que nada de mais acontecera e Mel poderia ter a impressão errada. Ou pior, talvez ela nem se importasse.

Chegaram cedo à locação do dia. Durante toda a manhã, se sentiu sobrando. Mel ficava muito concentrada enquanto trabalhava e, ele percebeu, sua presença era dispensável. Na hora do almoço, resolveu perguntar.

— Amor, você se incomoda que eu acompanhe seus ensaios?

Ela o olhou por baixo dos cílios.

— Por quê a pergunta?

— Pode ser apenas impressão minha.

Mel respirou fundo, pousou os talheres no prato e limpou a boca num guardanapo.

— Não é que eu me incomode, é só você não ficar dando palpite, entende?

— Não dei palpite!

— Eu te conheço, Ben, você faz caras e bocas o tempo todo! – Ela não falou de maneira carinhosa ou brincalhona, foi uma bronca, contida, ainda assim, uma reclamação. Eles nunca tiveram essa conversa antes, por isso, talvez ele se comportasse de maneira inconveniente sem perceber.

— Não foi minha intenção – afastou o prato de comida – Você sabe que pode falar comigo, não é?

Mel assentiu com a cabeça, mas o celular tocou. Ela levantou o dedo indicador na direção do marido e começou a teclar freneticamente com a outra mão.

— Preciso ir – preparou-se para levantar – você pode tirar a tarde de folga – sorriu, dengosa – Vá andar por Roma! – Beijou-o rapidamente e foi embora.

Ben entendeu o recado. Voltou para o hotel, subiu até o quarto, pegou sua câmera, baterias extras, enfiou tudo o que precisava numa pequena mochila e saiu para explorar os arredores. Fotografou a tarde inteira.

Enquanto isso, Nina almoçou no quarto, navegou pela internet por quase duas horas, depois decidiu fazer compras. Tomou um taxi, parou numa rua de comércio movimentado e encontrou o que queria: um vestido novo que combinava com suas intenções para com a festa daquela noite.

Às dezenove horas ficou pronta para cumprir seu compromisso de trabalho. Havia conseguido a lista de convidados com a secretária de Dante e fez a tarefa de casa. Tinha absoluta certeza de que a noite renderia bons frutos.

No trajeto até um dos bairros mais caros de Roma Nina aproveitou para rever, no celular, as fotos que Ben fizera dela na noite anterior. Ele é mesmo muito bom fotógrafo, pensou, com um sorriso involuntário se formando em seus lábios.

Melissa ligou quando a noite já se anunciava, fora convidada para uma festa, explicou. Ben não prestou muita atenção, ansioso que estava por também lhe contar sobre tudo que descobrira: as praças, as igrejas, os monumentos e as fontes belíssimas; queria levá-la para conhecer todos aqueles lugares incríveis! Mas a esposa tampouco prestava atenção ao que ele dizia, empolgada com o convite de seus sonhos. Ben foi o único a perceber o descompasso.

— Mel, a gente precisa de um tempo para nós dois – assim que ela chegou, ele deu um jeito de conseguir uma brecha para tocar no assunto. Estavam em Roma há três dias e mal se viam! Melissa riu como se ele brincasse.

— Pode vestir aquele blazer preto, fica muito bem em você.

— Amor, você está me escutando? Vamos namorar hoje, hum? Estamos cercados de lugares extraordinários, tudo bem perto daqui – abraçou a mulher pela cintura, pousando um beijo demorado em seu pescoço.

— Ben, eu preciso ir à essa festa, você nem acreditaria nos nomes que estão na lista! – O tom de voz não deixou espaço para argumentação. Ele concordou sem discutir. Ficou pronto logo e se sentou na poltrona para esperá-la.

Melissa locomoveu-se pelo quarto usando um vestido azul-escuro com decote generoso. Prendeu os cabelos loiros num coque desarrumado, sensual, e aplicou a maquiagem forte que tanto gostava, realçando seus traços perfeitos.

A mulher mais linda do mundo, Ben pensou, exatamente como pensava desde que era um menino de escola.

— Se eu não for, você vai ficar chateada? – falou em voz alta, não poderia voltar atrás. Mel o encarou, avaliou por meio segundo e sorriu.

— Claro que não, meu amor, sei que você não gosta dessas coisas – ela nunca se preocuparia, pois conhecia o marido muito bem e, na certa, ele passaria a noite na frente da televisão ou do laptop – Ligo quando estiver saindo.

O casal não se beijou na despedida.  

Ben permaneceu no quarto. Assistiu um programa de entrevistas em italiano por duas horas inteiras sem entender praticamente nada. E quando sentiu fome cogitou fazer um pedido, mas optou pelo restaurante. Vestiu o blazer e desceu.

No térreo, da porta do elevador, avistou Nina atravessando o salão. Ficou em dúvida se apertava o passo ou acenava… gritar o nome dela seria ridículo. Acompanhou-a de longe e viu que tiveram a mesma ideia. 

Encontrou-a no bar, como na primeira noite.

— Já de volta? – falou às suas costas. Nina virou-se devagar, Ben engoliu em seco.

Ela escovara os cabelos e se maquiara um pouco; usava brincos reluzentes e um colar com um pequeno pingente em forma de gota que apontava para o decote quadrado do vestido preto.

— Onde você vai assim? – ela falou entre risos, medindo o homem de cima a baixo.

— Vou jantar com você – Ben mal acreditou na ousadia que acabava de cometer. Estava prestes a se explicar quando Nina estendeu a mão. Ele calou a boca e a conduziu até a mesa.

Eles jantaram, beberam vinho e conversaram sobre o futuro. Ben havia decidido minutos antes que, tão logo voltasse ao Brasil, reabriria seu estúdio fotográfico. Nina também revelou novidades: conseguira alinhavar três novos contratos para sua empresa em poucas horas num coquetel maçante.

— Assim como você, Benjamin, também tomei uma decisão profissional importante essa noite: terei uma conversa definitiva com o presidente da companhia assim que chegar ao Brasil – estreitou os olhos, virando a cabeça um pouquinho de lado, e ele se lembrou que vira essa mesma expressão no rosto dela na noite em que se conheceram.

— Isso deve ser um sinal, Nina – sorriu feito um menino – sinal de que teremos dias melhores, nós dois!  

— Pela coragem de vivermos dias melhores – Ela ergueu um brinde. Ben bateu levemente com sua taça na dela, sentindo um constrangedor nó na garganta.

Ben e Nina foram os últimos a deixar o restaurante. A banda parou de tocar, os garçons recolhiam os pratos que restavam sobre as mesas e lhes direcionavam olhares enviesados e, provavelmente, insultos em italiano. Eles riram dessa hipótese.

— Não vamos entender nada mesmo! – Ben ria mais agora.

— Vamos embora antes que nos expulsem! – Nina, também um pouco mais alegre por causa do vinho, equilibrou-se nos saltos e, graciosamente, deu-lhe o braço.

Seu vestido preto e longo possuía uma fenda que permitia ver parte de sua perna. Nada muito ousado, o traje todo era discreto e elegante, mas a sensualidade que ela exalava mexia com ele, o vestido servia apenas como pretexto. Naquele instante, perigosamente, Ben admitiu que aquela mulher o impressionava mais a cada vez que se viam.

Nina caminhou pelo saguão ao seu lado, bem perto, tocando seu braço, e ele sentiu algo muito parecido com desejo por ela.

— Você vai mesmo embora amanhã? 

— Vou – Nina encarou seu acompanhante.

O belo homem era gentil, inteligente, doze anos mais jovem e casado. Que combinação, Nina!, repreendeu-se mentalmente.

Subiram os oito andares, sozinhos no elevador, em silêncio. Seus quartos ficavam em lados contrários, de modo que a despedida se daria ali mesmo, no meio do corredor, mais uma vez.

— Obrigada pela companhia, Ben.

— Obrigado por tudo, Nina.

Ele se inclinou e beijou o rosto dela. Trocaram um pequeno sorriso e um olhar mais demorado. Nina considerava seriamente convidá-lo para ir ao seu quarto. Ela não era uma mulher de grandes paixões, mas, consciente de seus atos, aceitou que se sentia atraída por Benjamim e já pesava as consequências de um envolvimento. Iria embora na manhã seguinte, eles não tornariam a se encontrar, ninguém se machucaria! Não que tivesse se esquecido da esposa jovem e linda – mas, até onde sabia, a garota se preocupava mais com os próprios interesses do que com o marido. Sentiu-se bastante hipócrita com aquele argumento esdrúxulo.

— Nina, eu… – Ben tocou-lhe o braço com a ponta dos dedos e hesitou, como se pedisse permissão. Ela ergueu um pouco o rosto. Ele alcançou sua boca.

O beijo foi tão bom quanto Nina imaginou que seria. Benjamim era um homem amável e um pouco tímido, mas não poupou intensidade ao beijá-la. Segurando-a pela cintura, apertou-a com força contra o próprio corpo, enquanto suas línguas dançavam com sabor de vinho tinto.

Foi imprudente se agarrarem de tal maneira no meio do corredor do andar, mas nenhum dos dois teve pressa ou pudor.

Quando voltaram a se encarar, os olhos dele pediam desculpas. Ele iria para o quarto com ela e se arrependeria de manhã, Nina não teve dúvidas. Por fim, desistiu do convite que estava a ponto de fazer.

— Conserte isso, Ben – falou com carinho – converse com a Melissa e diga como você se sente com a ausência dela. Encontrem equilíbrio.

— Nina, você e eu…

— Eu também queria – interrompeu-o – mas não é possível para nós – afagou o rosto dele. Ben assentiu apenas uma vez.

Nina e Benjamin se despediram e tomaram direções opostas, afastando-se devagar, cada qual seguindo seu caminho, suas escolhas, seus pensamentos errantes.

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